Quando a tecnologia volta a ser encontro

Foto: Python Brasil 2019

Por Mário Sérgio

Nos últimos dias me deparei com o trecho do livro Regras para radicais: guia prático para a lutasocial, onde o autor descreve a visão de Saul Alinsky sobre organização comunitária. Alinsky defendia uma ideia simples e profundamente radical: comunidades fortes não são feitas de superestrelas, mas de organizadores. Pessoas capazes de ajudar um grupo a se reconhecer, identificar interesses comuns, mapear recursos e agir coletivamente em direção a um objetivo compartilhado.

Performances que nos cansam e nos forçam ao modelo narcísico de luta

Essa visão contrasta fortemente com o tipo de ativismo que se consolidou nos últimos anos, especialmente nas redes sociais. Uma lógica marcada pela performance individual, pela busca constante por visibilidade e validação algorítmica. Um ativismo cada vez mais solitário e narcísico.

A comunidade de tecnologia não ficou imune a isso. Hoje, grande parte da nossa energia é sugada por timelines, reels, cortes, métricas de engajamento e disputas por atenção. Falamos muito para audiências, mas conversamos pouco entre nós. Produzimos opiniões, mas criamos poucos espaços de escuta. Performamos segurança, mas raramente construímos ambientes onde seja possível errar, aprender e ser vulnerável.

No entanto, a tecnologia, especialmente software livre e projetos FOSS, raras vezes foi sobre indivíduos brilhantes isolados. Sempre foi sobre colaboração, interoperabilidade, confiança e continuidade. Código se mantém em comunidade. Documentação se escreve em conjunto. Governança se aprende praticando.

Quando a tecnologia volta a ser encontro

Organizar encontros presenciais ou híbridos, grupos de estudo, rodas de conversa, hackdays, espaços de cuidado e escuta não é algo “menor” ou secundário. É infraestrutura política e técnica. É o que sustenta comunidades no longo prazo. Os eventos online são muito importantes, pois alcançam pessoas com menos recursos para se locomover a partir do seu território, no entanto ainda é muito importante mobilizações e assembleias presenciais, que garantam esse espaço seguro para debate, sem uma pauta rígida imposta por lideranças que controlam as plataformas.

Existe um sonho dentro de mim de a comunidade de tecnologia brasileira voltar a investir energia na organização coletiva. Onde não haja audiência, mas participação. Onde o valor esteja no processo, e não apenas no resultado final ou na visibilidade individual.

Ambientes seguros não surgem por acaso. Eles são construídos com intenção, cuidado e compromisso. São espaços onde errar não vira exposição pública, onde vulnerabilidade não é fraqueza, e onde ninguém precisa provar o tempo todo que “merece estar ali”.

Se queremos uma tecnologia mais democrática, sustentável e alinhada com o interesse público, precisamos começar pelas nossas próprias práticas comunitárias.